A Queda dos Perpétuos

domingo, agosto 01, 2004

Metade

E que a força do medo que tenho,
não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo o que acredito
não me tape os ouvidos nem a boca

Porque metade de mim é o que eu grito,
mas a outra metade é silêncio


Que a música que eu ouço ao longe,
seja linda, ainda que tristeza

Que a mulher que eu amo
seja pra sempre amada
mesmo que distante

Porque metade de mim é partida
e a outra metade é saudade


Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece,
nem repetidas com fervor,

Apenas respeitadas,
como a única coisa que resta
a um homem inundado de sentimentos

Porque metade de mim é o que ouço,
mas a outra metade é o que calo


Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço

Que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada

Porque metade de mim é o que eu penso
e a outra metade é um vulcão


Que o medo da solidão se afaste,
que o convívio comigo mesmo,
se torne ao menos suportável

Que o espelho reflita em meu rosto,
um doce sorriso,
que me lembro ter dado na infância

Porque metade de mim
é a lembrança do que fui,
a outra metade eu não sei


Que não seja preciso mais
do que uma simples alegria
para me fazer aquietar o espírito

E que o teu silêncio
me fale cada vez mais

Porque metade de mim é abrigo,
mas a outra metade é cansaço


Que a arte nos aponte uma resposta,
mesmo que ela não saiba

E que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade
para fazê-la florescer

Porque metade de mim é a platéia,
e a outra metade é canção


E que a minha loucura seja perdoada,
Porque metade de mim é amor,
e a outra metade... também


Texto original em: http://www.deviantart.com/deviation/9382379/